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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Peregrinação à Serra da Barriga é tradição no Dia da Consciência Negra

Thaís Antonio
Enviada Especial da EBC

União dos Palmares (AL) - Desde 1981 intelectuais negros vão ao município de União dos Palmares (AL), no dia 20 de novembro, para subir a Serra da Barriga e visitar o local onde existiu o Quilombo dos Palmares e viveu um dos maiores líderes negros, Zumbi dos Palmares. O movimento cresceu e hoje o topo de um dos montes da serra atraiu, este ano, cerca de 10 mil peregrinos para a chamada Meca negra.
A programação começou com a limpeza espiritual do quilombo. Religiosos de matriz africana deram um banho de cheiro no local e depois receberam dezenas de capoeiristas para um café da manhã. Reunidos em um cortejo sagrado, levaram uma coroa de flores amarelas e brancas até a estátua de Zumbi.
A reverência ao herói nacional vinha de todos os lados. “Eu não poderia ser uma pessoa resistente se não existisse Zumbi dos Palmares. Toda gente negra brasileira tem nele aquele marco da resistência contra a discriminação e a segregação”, destacou o presidente da Fundação Cultural Palmares, Hilton Cobra.
Para a religiosa Cintia Santana, Zumbi começou a reconstruir a autoestima negra, perdida na travessia dos navios negreiros abarrotados de africanos escravizados. “O Zumbi, para nós que somos negros, foi uma quebra para sabermos hoje que temos identidade. Nós somos o que somos porque pessoas como ele lutaram pela nossa identidade, pela nossa cor, pela nossa raça”, diz. “Chegamos aqui no
Brasil forçados e começamos a trabalhar para os engenhos. Não tínhamos valor e ele mostrou que o negro tem valor.”
O mestre de capoieira Juscenildo Barreto da Silva, conhecido como mestre Veneno, aproveitou o dia fazer o que sabe. Na roda, entre um golpe e outro, deu seu depoimento: “o rei Zumbi é praticamente o nosso advogado, que lutou pela gente e morreu pela gente. Isso é muito importante para nós capoeiristas. Todos os dias, nas nossas escolas de capoeira, nas nossas vivências, a gente fala no rei Zumbi".
Foi no dia 20 de novembro de 1695 que morreu Zumbi, herói nacional perseguido por tropas do governo por lutar pela liberdade dos negros escravizados, trazidos da África para o Brasil. O Quilombo dos Palmares é um símbolo histórico dessa luta. Com mais de 200 quilômetros de extensão, ocupou uma área que ia de Pernambuco a Alagoas. Ali, negros e negras que não suportavam as regras da chibata se refugiaram desde o fim do século 16. Os historiadores acreditam que o Quilombo dos Palmares durou mais de um século.
A história desse local um tanto místico, um tanto símbolo de resistência não é totalmente clara. O pouco que se sabe foi contado na versão dos colonizadores. O pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, Zezito de Araújo, explica que a imagem de Zumbi como herói é uma construção recente. “Zumbi tem vários momentos no escrever da história brasileira. Primeiro ele não existia. Quando ele começou a existir, ele passou a ser considerado um suicida. Com isso, você descaracteriza esse grande herói que ele é, porque o desqualifica como tal”, reforça.
A partir da década de 1970, em consequência da militância do movimento negro, Zumbi passou a ter uma nova conotação: ele se tornou um herói, um guerreiro que liderou a revolta dos quilombolas. Para a professora Clara Suassuna, diretora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de Alagoas, a simbologia do herói Zumbi é muito forte.
Ela conta uma história que ouviu na Serra da Barriga, o local onde fica o Quilombo dos Palmares. “Eu entrevistei uma senhora na serra da barriga e ela disse que o negro Zumbi toda noite batia na porta da casa dela”. Por mais que o filho mostrasse a mãe que o barulho na porta era provocado por uma coruja, a mãe não se conformava: “eu sei a diferença entre coruja e Zumbi’”, conta. Com isso na cabeça, foi conversar com o professor Kabengele Munanga, da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo. “Ele me lembrou que os grandes espíritos se incorporam nos animais. Isso é uma prática de diversos lugares da África, da cultura indígena e isso tem um poder simbólico muito grande”, resumiu Munanga.
Clara Suassuna destacou que a história de Zumbi precisa ser tratada com mais respeito. “A gente não tem relatos escritos pelos próprios negros. Eu acho que ainda precisa muito estudo para a gente poder esclarecer e montar uma história de Zumbi de forma mais respeitosa, porque durante muito tempo ele foi machucado e só agora está sendo recuperado com a dignidade que merece”, diz.

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