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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Crianças ganham a vida e brincam em esgoto do Recife

 Folha de São Paulo - online
DANIEL CARVALHO
DO RECIFE

Apesar do mau cheiro e da água escura, o canal do Arruda é local de diversão e trabalho para os meninos do bairro homônimo, na zona norte do Recife (PE).
É dentro da água suja, em meio a latas, pedaços de plástico, móveis, eletrodomésticos e restos de comida e animais mortos que as crianças do bairro, situado a 15 minutos do centro da capital pernambucana, brincam e ajudam a reforçar o orçamento da família.
O problema não é novo. A Prefeitura do Recife informou que a situação era "muito pior" até o ano passado. No início deste ano, o prefeito Geraldo Julio (PSB) apontou o bairro como prioridade de sua gestão, mas as crianças e suas famílias continuam a viver em barracos de madeira cercados de lixo e lama.

Diego Nigro - 24.out.2013/JC Imagem/Folhapress
Crianças catam latinhas para reciclagem no canal do Arruda, no Recife (PE)
Crianças catam latinhas para reciclagem no canal do Arruda, no Recife (PE) 

Paulo Henrique, 9, chocou o Recife anteontem. Uma foto do garoto coberto de lixo e água suja até o pescoço estampou a capa do "Jornal do Commercio", mostrando uma realidade desconhecida pela classe média.
"Ele aproveita que eu vou trabalhar e entra", disse à Folha a faxineira Maria José Félix de Oliveira, 34.
Ela reprova a atitude do filho por temer doenças, mas reconhece a necessidade de inteirar os R$ 200 mensais que recebe pelas faxinas.
Um dia submerso no canal rende, no máximo, R$ 10.
Ela, os seis filhos e um "paquera", como ela se refere ao companheiro, vivem num barraco onde há uma cama de casal, uma de solteiro e um colchão. Todos dormem no mesmo ambiente, que dividem com duas televisões, uma geladeira, um fogão de seis bocas e um armário.
Paulo Henrique não entra sozinho na água suja: alguns de seus oito primos o acompanham algumas vezes.
"Todo menino gosta de dinheiro. Eles pegam a reciclagem, vão ali e pegam o trocado do dia", afirma o desempregado Manoel Francisco Alves, 37. Ele e a mulher vivem de "oia" (bicos). Quando a reportagem chegou ao barraco deles, na tarde de ontem, ambos bebiam e não sabiam onde estavam os filhos.
Segundo o secretário municipal de Infraestrutura, Nilton Mota, desde o início do ano o canal é dragado e suas margens são capinadas. Até janeiro de 2014, a prefeitura deve entregar um galpão de reciclagem e, segundo Mota, são realizadas ações de conscientização com os moradores da beira do canal.
Um projeto de urbanização da área aguarda liberação de recursos federais. O valor ainda não foi definido, e as obras devem durar até 18 meses.
Mota afirma ainda que um conjunto habitacional receberá parte das famílias do local. As demais devem ser beneficiadas com unidades do programa federal Minha Casa, Minha Vida.

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